Bullying: quando as agressões do recreio afetam a vida e a sociedade

Por Vagner Apinhanesi
 
Chega a hora de ir à escola. Você vai ao quarto do seu filho, e ele diz que está com dor de estômago. Compassivamente, você o deixa em casa, prepara um chazinho para ver se a dor passa e, depois da melhora do amado paciente, esquece a preocupação.
 
Num outro belo dia, no mesmo horário, a dor muda de lugar, agora está na cabeça. Mais uma vez, a compaixão toma conta do seu coração, e lá se foi mais um dia de aula. E assim as doenças vão se sucedendo dia a dia: diarreia, vômitos, febre. Você logo culpa a maldita virose.
 
De repente, chega o boletim escolar. É aquela desgraça. O desempenho do seu filho piorou, e ele já não tem mais a mesma vontade de ir à escola, nem o capricho nos trabalhos escolares. Está na hora de analisar melhor o caso, pois pode ser mais sério do que uma inocente preguiça ou a comum pressa de terminar os deveres para brincar com os amigos. Seu filho pode ser mais uma vítima do bullying.
 
O bullying são agressões (físicas, verbais ou psicológicas) repetitivas, intencionais, sem motivo evidente, causadas por um ou mais estudantes contra outro que não apresenta resistência. Geralmente, o alvo é o aluno com aparência física que apresenta alguma particularidade, tímido, introvertido, passivo e que tem dificuldades, principalmente, para se defender. Já os autores, mas isso não é uma regra, geralmente são indivíduos que sempre se metem em confusão, em desentendimento, gostam de satirizar e ridicularizar os colegas e têm a necessidade de dominar, chamar a atenção para si.
 
“São aqueles alunos que querem ser populares na escola, desejam ser aceitos em um determinado grupo, só que não conseguem conquistar esse ingresso por meios legais, digamos assim, e aí vão usar a dominação e outros subterfúgios”, explica a pesquisadora do bullying escolar e consultora educacional Cléo Fante.
 
Os estudos sobre o bullying tiveram início na década de 70, na Suécia e Dinamarca, e se intensificaram na década de 80, na Noruega, especialmente por intermédio do professor e pesquisador Dan Olweus, na Universidade de Bergen.
 
Em sua pesquisa, com quase 100 mil alunos dos ensinos primário e secundário daquele país, Olweus constatou que 15% dos estudantes estavam envolvidos em casos de bullying. A partir de então, surgiu a preocupação com esse tipo de comportamento dentro das escolas, principalmente pelo fato de envolver crianças em tenra idade escolar, em processo de desenvolvimento e em plena formação.
 
“A preocupação dos especialistas, sobretudo da área de Psicologia, se dá por causa das consequências do bullying, as quais não incidem apenas no processo de aprendizagem, mas também, na sociabilização e, especialmente, na questão comportamental das crianças, cujas sequelas podem acompanhá-las por toda a vida, caso não haja uma interrupção, um tratamento”, comenta a professora Cléo Fante.
 
O bullying pode ocorrer nas escolas, no trabalho, onde é chamado de mobbing – no Brasil conhecido por assédio moral –, nos condomínios, nos presídios, nos asilos ou em qualquer ambiente em que haja relações interpessoais. Mas o que mais preocupa os especialistas é a sua incidência nas escolas, justamente por afetar seres humanos em desenvolvimento.
 
Como identificar 
 
Segundo Cléo Fante, os pais podem perceber se o filho é vítima desse tipo de violência com o surgimento de alguns indícios. Se a criança é extrovertida, alegre, interage facilmente, e, de repente, muda de comportamento, se retrai, torna-se introvertida, triste, aflita, agressiva, é necessário uma observação mais atenta.
 
A mesma conduta deve ser adotada em relação ao rendimento escolar: se houver uma queda brusca, não apenas em uma ou duas matérias, o que é normal acontecer, mas na desenvoltura escolar como um todo, desinteresse, evasão e até mesmo reprovação.
 
“Como pais, podemos observar quanto ao aspecto da criança, não apenas no comportamento, mas também no desleixo com as atividades escolares, a falta de prazer, o pedido para mudar de escola sem uma justificativa convincente, a diminuição da assiduidade. Outros sinais muito frequentes são os sintomas psicossomáticos. No momento de ir para a escola, a criança apresenta dor de cabeça, dor de estômago, febre, diarreia, vômitos. Esses sintomas podem levar a um diagnóstico de bullying, desde que sejam frequentes”, detalha a especialista.
 
Faz-se necessário ressaltar que para ser caracterizada uma suspeita de bullying, todos esses sintomas psicossomáticos ou mudanças comportamentais devem ser frequentes, não pontuais, e se agravam ao longo do tempo.
 
Cléo Fante também alerta para que esse tipo de violência não seja apenas do conhecimento dos profissionais da educação, mas também, dos profissionais da pediatria, da psicologia e do Conselho Tutelar.
 
Ocorre, em certos casos, de a criança apresentar esses sintomas psicossomáticos, a família levar ao médico e receber um diagnóstico de virose, cujos sintomas são parecidos. É necessário que o médico também investigue como se dá o relacionamento da criança na escola, com os colegas.
 
“É uma vitimização que a criança está somatizando e adoecendo. Esses sintomas podem causar doenças muito sérias, como a depressão, as alergias, as fobias, uma série de problemas de ordem inclusive psiquiátrica, ou até mesmo levar ao suicídio”, adverte a professora Cléo Fante. “Às vezes, um estudante vem suportando essa vitimização durante anos e, num dado momento, há uma inversão de comportamento. Então, de retraído, submisso e passivo, se torna agressivo, violento, e em casos crônicos, pode ir armado para a escola e tentar matar ou praticar o suicídio, como vemos em diversos países, inclusive no Brasil.”
 
Para identificar o bullying ou evitar que suas consequências sejam mais graves, é importante que os pais estejam sempre presentes e atentos. Ao notarem qualquer alteração significativa no comportamento dos filhos, devem ir à escola e procurar saber como eles estão se portando, quais as causas da queda do rendimento escolar, do desinteresse. Estimular o revide ou ir para a escola ameaçar o agressor são erros comuns que a família comete que geram ainda mais violência.
 
E não são apenas os professores que têm a responsabilidade de observar os alunos para identificar possíveis vítimas ou agentes do bullying. Essa tarefa se estende aos porteiros da escola, aos inspetores, aos motoristas do transporte escolar. Toda a comunidade escolar precisa estar preparada para coibir esse tipo de violência.
 
“É bom salientar que nem tudo que acontece na escola é bullying. O que estamos vendo no Brasil e em outros países é uma generalização. Tudo virou bullying, todo mundo sabe e fala sobre o assunto, quando na verdade não é tão simples assim. É bullying quando a violência não tem motivo, é uma implicância gratuita, planejada, com ações deliberadas e repetitivas que têm o objetivo de causar danos. Quando o indivíduo se defende, quando é uma ação pontual, quando os envolvidos brigaram ou discutiram e um deles vai para a Internet e ofende o outro, isso não é bullying, porque teve uma ação geradora”, explica Cléo Fante.
 
Aliás, a internet também é um território fértil para esse fenômeno, que na web recebe o nome de ciberbullying. Em algumas circunstâncias, a própria escola pode estimular a atitude violenta contra determinados alunos, quando, por exemplo, os separa em salas por aproveitamento acadêmico.
 
“Se essas medidas não forem trabalhadas com os alunos, ou seja, se eles não participam dessas decisões, tais atitudes podem estimular sim a prática do bullying, porque os jovens serão rotulados, tanto aqueles que ficarem na classe dos alunos com melhor desempenho como os outros da classe das notas piores”, alerta Cléo Fante. “O ideal é que a escola tome suas decisões de uma maneira democrática, fazendo que todos os envolvidos participem desse processo”, recomenda.
As providências 
 
Após tomarem todos os cuidados para a identificação do bullying e seja confirmado o caso, os pais devem agir imediatamente. O primeiro passo é ir à escola, conversar com a coordenação e a direção para saber o que está acontecendo e mensurar a gravidade do problema.
 
Dependendo da gravidade, é recomendado procurar um profissional, geralmente da área da psicologia, que fará um diagnóstico e encaminhará para um médico psiquiatra ou pediatra. Isso varia de acordo com o caso. Em algumas circunstâncias, a escola não pode ser omissa e merece ser responsabilizada, e essa responsabilização, compartilhada com outras instituições.
 
“Quando se tratar de lesão corporal, chantagem ou algo mais grave, deve ser encaminhada para o Conselho Tutelar, para o Ministério Público e até para a delegacia de polícia. O bullying, dependendo da gravidade, é ato infracional praticado por um adolescente, passível de punição pela lei. Não são poucos os casos de adolescentes cumprindo penas socioeducativas em decorrência de bullying, e até mesmo de escolas, como uma em Ceilândia, no Distrito Federal, obrigada a pagar indenização a uma família por omissão. Existem responsabilizações contra os autores, seus pais e escolas”, explica Cléo Fante. “Diante dos casos de bullying, ninguém – educadores, pais, escola ou alunos – pode se omitir. É necessário auxiliar a vítima e o autor, mas também precisamos pensar naqueles expectadores que nada fazem para coibir a violência, com medo de se envolver, muitas vezes, alertados pela família para não entrarem em encrenca. Seja por medo, seja por omissão, a pessoa que assiste à agressão e nada faz está colaborando para uma geração de indivíduos omissos, de adultos intolerantes, preconceituosos e que discriminam. Dessa forma, banalizam a violência, acreditando que ela é normal, faz parte do cotidiano, da vida”, esclarece a pesquisadora.
 
Como nos casos de bullying escolar tanto a vítima quanto o agressor são jovens que estão em desenvolvimento, é importante que ambos tenham o tratamento adequado. As consequências dessa violência são graves para a sociedade, não só a curto prazo, mas também a longo e médio prazos.
 
Se quando jovem o indivíduo já é um agressor, como será na fase adulta? Para a pesquisadora Cléo Fante, encarar o problema de frente é a melhor maneira de resolvê-lo, para que tanto vítima quanto agressor sejam saudáveis para a sociedade.
 
“O jovem que comete bullying tem muita probabilidade de ser um indivíduo de difícil convivência, no seu local de trabalho, na sociedade, na constituição familiar. Vai querer dominar, usar da violência doméstica, do assédio moral, porque esse comportamento ficou arraigado, não foi corrigido, se tornando parte do repertório comportamental da pessoa. Por outro lado, se não houver uma intervenção junto à pessoa que foi vítima, um tratamento, no futuro, ela será ansiosa, insegura, introvertida, com dificuldades de falar em público, de se relacionar, não apenas com amigos, mas no aspecto afetivo também, porque passa a não confiar no próximo. Então, as consequências são gravíssimas”, alerta a especialista.
 
Educar para a paz 
 
Como problema sério, o bullying merece uma ação conjunta para ser evitado, identificado, tratado e eliminado do ambiente escolar: família, escola, profissionais da área de saúde – em campanhas preventivas –, Ministério Público, Conselho Tutelar e Delegacia de Polícia, abordando a violação dos direitos, principalmente o direito à Educação, pois muitas crianças abandonam a escola por causa do bullying.
 
A conscientização e o empenho dos diversos setores da sociedade são essenciais para atitudes que proporcionem um futuro melhor, onde a paz e o respeito sejam compartilhados por todos os cidadãos. A professora, pesquisadora do bullying e consultora educacional Cléo Fante é autora dos livros Fenômeno bullying: Como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz (Verus Editora, 2005) e, em conjunto com José Augusto Pedra, Bullying Escolar - Perguntas e respostas(Artmed, 2008).
 
Na primeira obra, apresenta dados de uma pesquisa realizada na região de São José do Rio Preto e o Programa Educar para a Paz, desenvolvido por ela e aplicado durante dois anos em uma escola pública municipal, a qual apresentava um índice de 66% de alunos envolvidos em bullying, como vítima, autores ou autores e vítimas, simultaneamente. Após a implantação do projeto, esse número caiu para 4%.
 
“É um projeto que se mostrou efetivo, sendo utilizado em partes ou integralmente em várias escolas. Logicamente, com o passar do tempo, o Programa Educar para a Paz foi sofrendo algumas modificações, mas ele depende muito da realidade de cada escola, portanto, é flexível e se adequa a cada instituição”, conta a autora.
 
Em seu segundo livro, Cléo Fante apresenta uma história que aborda de forma lúdica a dinâmica bullying. A obra oferece, também, uma relação de perguntas e respostas que facilitam o entendimento do leitor, além de atividades para as crianças sobre a história e um questionário para identificar possíveis envolvidos.
 
Para entrar em contato com a professora Cléo Fante, envie e-mail para cleofante@terra.com.br.
 
(Imagem de novaescola.org.br)